Mostrar mensagens com a etiqueta Tintoretto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tintoretto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Cegos para verem

Michelangelo Merisi "Caravaggio" (1571 - 1610), "Ceia em Emaús", 1601-02, óleo sobre tela, 139 x 195 cm, National Gallery, London

O tema: dois dos apóstolos aceitam caminhar com um estranho - durante a refeição, em Emaús, reconhece-lo-ão como o Cristo ressuscitado, ao verem-no abençoar e partir o pão: ao ser reconhecido, Cristo desaparece (S. Lucas, 24:13-32; S. Marcos, 16:12). A propaganda católica, contra-reformista, poude encontrar aqui um exemplo da primazia da Fé sobre o estudo, em questões religiosas: sem a Fé, de nada serve conhecer os textos sagrados de uma ponta à outra. A Fé é independente da Razão, do estudo, da posição social, da riqueza, da vontade, do momento e do local. A Fé é milagre que pode acontecer a qualquer pessoa, em qualquer lugar e a qualquer momento. É iluminação (que, por vezes, cega, para melhor ver, como aconteceu a S. Paulo, na retórica de Quevedo): e é pela luz e pela sombra, escondendo e revelando (e transformando), que Caravaggio principalmente encena o milagroso. O tema (a ceia em Emaús) também funciona como um eco da Última Ceia: um Cristo reconhecido ao partir o pão que abençoa é um Cristo presente, feito carne e sangue pelo pão e o vinho, literalmente presente, para lá do símbolo ou da alegoria, sempre presente no Santíssimo Sacramento da Comunhão católica. Mas esta ceia não faz sair anjos das lamparinas, num delírio fantástico, como no Tintoretto (1518-1594) da grande tela de S. Giorgio Maggiore. É pela luz que, sobre um intenso realismo sempre reconhecido ao mestre, se introduz o milagre.

O realismo: poucos elementos insinuam os textos bíblicos nesta cena de taberna - as roupas da figura central (o Cristo que abençoa) são o único adereço que ligeiramente descola a cena de um quotidiano seiscentista. E não se trata de um quotidiano burguês de "classe média", como nos habituaremos a ver, com frequência, nas "cenas de género" e nas "naturezas mortas" holandesas, mas de um espaço habitado por um taberneiro de mangas arregaçadas, por um velho que exibe no primeiro plano do quadro o rasgão branco no cotovelo negro e por um outro, careca e de nariz avermelhado, cuja concha de vieira afirma a sua condição de peregrino. Homens comuns em ambientes comuns, pobres até (os ambientes e os homens), longe da idealização aristocrática que a pintura maneirista frequentemente exibia. Realismo ilusionista, porque cria a ilusão de estarmos a olhar para a realidade e não para uma imagem: o domínio da perspectiva renascentista, a multidão de adereços, segundo a tradição flamenga representados numa multiplicidade de pormenores e numa pluralidade de aspectos (texturas, maneiras de reflectir ou absorver a luz), a luz que, se insinua o milagre, também reforça a tridimensionalidade da matéria, acrescentando-lhe o relevo e o peso já delineados pela estrutura perspéctica. Caravaggio exibe, triunfalmente, uma pintura "3D" que não necessita de óculos bi-cromáticos, construída pela perspectiva, pela luz e pela cor: a mão esquerda do apóstolo à nossa direita e a mancha branca do rasgão no cotovelo daquele que está à nossa esquerda saltam para fora do quadro, invadindo o espaço do observador.

A luz: a iluminação teatraliza a cena, o que quer dizer, em primeiro lugar, que começa a resgatá-la à vulgaridade - qualquer coisa se passa, entre a luz e a sombra muito contrastadas. Usemos o plural: entre as sombras - e as luzes. Porque Caravaggio não ilumina a cena usando, apenas, uma fonte de luz: ilumina-a como um palco ou um "plateau" cinematográfico (ou um estúdio de fotografia), com uma pluralidade de luzes, que vêm de pontos diferentes no espaço. Encenação, portanto. Mas, também, insinuação do fantástico (e do simbólico): atrás da cabeça do Cristo, como se houvesse luz sobre a mesa, a sombra da sua cabeça gera uma auréola que faz pressentir o estatuto sagrado da figura. E que dizer da sombra que o cesto, que já quase caíu da mesa, lança sobre a toalha branca? Esse cesto, apenas ocupado por fruta, gera a sombra parcial de um peixe: um dos mais antigos símbolos do Cristo (e dos primeiros cristãos). A luz, que permite ver, permite, também, ultrapassar a visão - ir para lá do visível. Não é, ainda, a luz dos impressionistas, fenómeno, coisa material que caminha no espaço material (por vezes visível) da "atmosfera": não é essa a luz do Barroco, nem quando rebenta em fulgores venezianos que tornam a pincelada visível, como acontece na pintura do contemporâneo flamengo de Caravaggio, Pieter Pauwel Rubens (1577 - 1640).

O texto de Gilles Deleuze referido na última aula foi "Un Critère pour le Baroque", Chimères, nº 5-6, 1988, pp. 1-6. Este texto já foi citado neste blog, na entrada ("post") de 26 de Janeiro de 2006 "Nós, os Barrocos". Consultem-se as entradas etiquetadas sob a designação "Barroco".

Sobre a história da liturgia católica, poderá consultar-se:
Robert Cabié, The Eucharist, Collegeville (Minnesota), Liturgical Press, 1986, tradução de Matthew O'Connell.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

O Arquivo Secreto do Vaticano

Contrato de 6 Novembro de 1551, assinado por Jacopo Robusti ("Tintoretto"), ASV, Fondo Veneto I, 1807 A

"Contract stipulated between the Venetian Monastery of the Madonna dell'Orto and Jacopo Robusti, also known as «Tintoretto» with whom they agreed on the figures to be painted on the little doors of an organ (portelle), the «Presentazione», the painter’s fee and the time limit within which the works had to be done. Original handwriting by D. Daniele, the legal representative of the monastery, with the autograph signatures by Tintoretto next to the amounts of the partial payments he received, until the settlement on 14th May 1556".

(Contrato entre um mosteiro veneziano e o pintor dessa cidade conhecido por Tintoretto (1518-1594): texto de apresentação do documento, na versão inglesa do "Arquivo Secreto")

Acaba de ser disponibilizado através da "internet" o famoso "Arquivo Secreto" do Vaticano (em inglês e italiano). Para além de documentos envolvendo artistas (as cartas entre o Papa e Miguel Ângelo, por exemplo), é possível passear pelos frescos do arquivo. Vale a pena explorar outros recursos oferecidos "online" pelo Vaticano: um "link" foi-lhes dedicado em "Recursos".

No "link" "Mundo Moderno" (em "Recursos"), poderão ser explorados os recursos relativos à "Reforma" ("protestantismos") e "Contra-Reforma" ("catolicismo"), para uma melhor compreensão da conjuntura em que o "Renascimento" se torna "Maneirista".

Novos links continuam a ser acrescentados: "Triplov" (um portal de cultura portuguesa), "Guardian" (o suplemento dedicado às artes do jornal britânico) e "Tate etc." (o magazine "online" da Tate), em "Imprensa"; em "Arte Portuguesa", a "Matriznet" (o motor de busca que permite aceder às coleccções de todos os museus do Instituto Português de Museus) - que já voltou a funcionar.

Dois novos "posts": "Elementos de Arquitectura 'Antiga' e 'Medieval'" e "Perspectiva 'natural' e 'artificial'", ambos com a data fictícia de 30 de Novembro de 2005.

"Clicar" nas imagens permite visualizá-las num tamanho maior.