
"Todos os começos se erguem do olho de um vórtice. Este ponto zero é quase imóvel. 'Quase' é o que o torna uma excepção entre todos os pontos zero. O centro silencioso de um vórtice é um intermediário dinâmico, um intervalo de incerteza, um limiar: é um acontecimento. A exclusividade do seu silêncio alberga a liberdade absoluta. Sem espaço, constitui um exílio; sem tempo, é composto por múltiplos presentes, por uma série de começos. Este ponto zero tem uma única qualidade: é um hiato. Porém, o silêncio do vórtice nutre o impulso para uma mudança de direcção e uma mudança no pensamento.
O ponto de partida do meu livro é este instante de absoluto silêncio. Porque a quase intangível experiência do encontro, frente-a-frente, com a obra de arte parece-me definível apenas como o momento de choque induzido por tal hiato do ponto zero".
Doris von Drahten, Vortex of Silence, Milano, Edizioni Charta, 2004, pág. 6.

"Mas talvez seja tempo de nomear essa imagem que aparece no fundo do espelho [das "Meninas", de Velázquez] e que o pintor vê em frente do quadro. Talvez seja melhor determinar, de uma vez para sempre, a identidade das personagens presentes ou indicadas (…). Estes nomes próprios seriam referências úteis, evitariam designações ambíguas; dir-nos-iam, em todo caso, o que o pintor vê e o que contemplam quase todas as personagens do quadro. Mas a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita, nem que, em face do visível, ela acuse um deficit que se esforçaria em vão por superar. Trata-se de duas coisas irredutíveis uma à outra: por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz; por mais que se tente fazer ver por imagens, por metáforas, comparações, o que se diz, o lugar em que estas resplandecem não é aquele que os olhos projectam, mas sim aquele que as sequências sintácticas definem. (…) Se quisermos manter aberta a relação da linguagem e do visível, se quisermos falar não contra mas a partir de tal incompatibilidade, de tal modo que fiquemos o mais perto possível de uma e do outro, então é necessário pôr de parte os nomes próprios e permanecer no infinito da tarefa".
Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, Lisboa, Edições 70, s.d., pp. 64-65

2 comentários:
Entre a aparência e o conhecimento que, mal ou bem, considero verdadeiro há uma diferença fundamental, a mesma que podemos encontrar entre o diletantismo e a erudição.
Como sou diletante por excelência resta-me agradecer-lhe o vórtice e o vértice.
O olho morto e o terrível ralo - seu contraponto, seu contracampo: ponto de fuga que não conduz ao infinito. Que não conduz. Se os óculos espelhados do polícia, poucas sequências antes, devolviam ao observador a sua própria observação, o ralo arrasta o olhar para lá do olhar, para onde é impossível ver. Buraco negro que tudo suga. Ponto de fuga sem transcendência...
Psycho é o território hitchcockiano que materializa todas as ausências: a de Rebecca (Rebecca, 1940), de Madeleine (Vertigo), do Senhor/Senhora Kaplan (North by Northwest), da força instigadora dos pássaros, em The Birds, de 1963, (que é como quem diz: o Deus Ausente e Insondável?) - todos se encontram no corpo empalhado da mãe. A casa da Mãe de Norman é o castelo de Elsinore, do confuso e edipiano Hamlet, e a mansão de Rebecca: o corpo ausente da Mãe, marcado na cama onde dormia com o amante, é a Rebecca que já não veste a legião de vestidos preservados, como relíquias, pela governanta fetichista. Os pássaros, esses, estão empalhados...
Norman espreita por um buraco o objecto do seu desejo impossível, bloqueado pela figura da Mãe que vive nele, e, travestido como Mãe, irá conduzir esse objecto a um outro buraco, negro, terrível, sem regresso, sem diálogo, o buraco que escorre o sangue na água do banho. Vórtice/vertigem, como o que habita o olhar da mulher do genérico inicial de A Mulher que Viveu Duas Vezes/Vertigo, dois anos anterior. Na Intriga Internacional/North by Northwest (1959), a mulher (Eva-Marie Saint) está no centro da vertigem da perspectiva acelerada pelo estreito corredor da carruagem de combóio - fálico combóio, finalmente entrado no escuro túnel, no "happy end".
Norman espreita por um buraco o objecto do seu desejo, depois de retirar o quadro que o escondia, uma reprodução de uma qualquer "Susana e os Velhos". Susana e os seus próprios velhos, "ses vieux, même", como diria o Duchamp do "Grande Vidro" (La Mariée Mise à Nu Par Ses Célibataires, Même, 1915-23, Philadelphia Museum of Art), em versão psicopata, de mistério policial enamorado pelos primórdios do cinema, no peepshow oferecido por Étant Donnés - em ambiente que me lembra, sempre, o Frenzy, de Hitchcock.
O espelho das "Meninas" de Velasquez é, em Foucault, um lugar complexo, onde se encontra o que é impossível localizar num lugar único e contemporâneo: o pintor que representou, a figura representada e o observador. Timidamente, fantasmagoricamente, revela os reis de Espanha: não nos devolve, a nós, que olhamos, nem ao Velasquez que olhou para pintar. A grande tela de costas é como que o verso da grande tela, as "Meninas", que Velasquez nos mostra no momento (agora ficcionado, encenado, alegórico) em que o pintou: quadro invisível, superfície bidimensional a ser violada, mas do lado invisível, pela perspectiva. Nada mostra. Nada diz. Aí podemos colar todas as imagens e todas as palavras - e mostrar os conceitos e falar das imagens, não contra, mas a partir da sua incompatibilidade.
A Fountain, o urinol de Duchamp, é uma obra de arte? Se dissermos "sim" ele fará perceber aquilo em que o não é - se dissermos "não" ele fará perceber aquilo em que o é. Permanente crítica muda, é motor que conduz a "Arte" ao que, sobretudo, é hoje: um espaço raro de absoluta liberdade, crítico e crente.
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